JUSTIÇA A GENTE DEIXA PRA DEUS?

 

A excelente professora de direito tributário, Fabiana Marini, do curso jurídico FMB, num desses momentos motivacionais da aula, pré-exame da OAB, disse o seguinte aos alunos: "Nós queremos advogar; a gente quer ganhar dinheiro. Justiça a gente deixa pra Deus. A gente quer é o melhor para o nosso cliente." 

“Justiça a gente deixa pra Deus.” Uma frase bastante emblemática, é verdade. Assim que a ouvi, comecei a refletir, e pensei: “Que absurdo é esse que ela está dizendo? Isso é motivacional? Não pode ser.” Então, concluí que essa era umas das frases mais DESMOTIVACIONAIS para a carreira jurídica que eu já ouvi na vida! Esclareço.

Primeiramente, aliás, o que é justiça? Em que pese a abstratividade do conceito, justiça é virtude moral; qualidade daquilo que é justo, conforme a razão, a verdade, e que, portanto, não só pode como deve ser praticada aqui no “mundo dos homens”. Isto é, justiça a gente não deixa pra deus, simplesmente. 

Agora, quem (ou o que) é “deus”? São tantos conceitos, e nenhuma definição prática. Em verdade, NINGUÉM o conhece, a não ser no campo do imaginário ou da fé particular. É, portanto, um conceito tão abstrato quanto o de justiça. 

A diferença, ademais, entre a “justiça de deus” e a “justiça dos homens” reside no campo da comprovação de que dispomos ao nosso alcance. A “de deus”, é a justiça ideológica, aquilo que esperamos ser justo que aconteça a nós ou a outrem após a morte. Eu não posso provar que assim será, mas espero que o seja. A “dos homens”, por outro lado, é real. Ela pode ser e é comprovada; acontece diariamente, enquanto a vida urge. Logo, a justiça “dos homens” é imediata, a “de deus” mediata - para quem crê nela. 

Em minha opinião, a professora agiu com imprudência em seu conselho último. Pois, como vimos, aqui se faz justiça sim - talvez não de forma perfeita, mas se faz. E isso não implica de forma alguma a afastabilidade, para quem acredita, da justiça divina. Houve por parte da mestra, apenas uma mistura desnecessária dos temas. 

Se eu pudesse, então, aconselhá-la, eu diria que o mais prudente (ao religioso) é que ela deixasse os assuntos da espiritualidade para os clamores da alma; que os praticasse o mais privativa e intimamente possível, e que a sala de aula, definitivamente, não é o local mais adequado para a exposição dessas convicções. 

Isto posto, ficamos entendidos que nada impede a perfeita harmonização entre a justiça “prática” e a “ideal”. Assim, na pior das hipóteses, as pessoas de bem terão ao seu dispor o RESGUARDO de pelo menos dois "juízes", cada qual na sua alçada, nessa busca nossa por JUSTIÇA. 


Luciano Caettano

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