Prezados cidadãos araguarinos,
Como secretário do Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural de Araguari, e em virtude de reunião ordinária realizada no dia catorze de julho do corrente, em que a maioria de seus membros NÃO FORAM FAVORÁVEIS AO ASFALTAMENTO DAS RUAS DE PEDRA, venho a público expor algumas razões pelas quais tomamos esta decisão.
Inicialmente havemos de concordar que o caso do asfaltamento das ruas de pedra (paralelepípedos) tem gerado muita polêmica e especulações. Afinal de contas, temos, ao que se sabe, mais de cinco milhões de reais em caixa para asfaltar várias ruas, e isso é muito excitante politicamente falando. Ainda mais em véspera de eleição. Entretanto, esse acontecimento não se restringe ao simples fato do nosso ente público municipal pretender a realização de uma obra qualquer de recapeamento. Este é um caso singular, que afeta nosso patrimônio cultural e que poderá interferir drasticamente na história do nosso município, empobrecendo-a sobremaneira. Tanto é verdade que o Ministério Público interveio.
De acordo com o Secretário Municipal de Obras, Silvio Póvoa: “esta obra será uma transformação histórica devido às mudanças urbanísticas que modernizarão a cidade, marcando assim uma nova etapa para a população araguarina que com os investimentos financeiros do governo estadual e com recursos também da administração pública municipal receberão uma cidade com nova pavimentação asfáltica”. São elas: Avenida Joaquim Aníbal e Praça do Rosário, Rua Bias Fortes, Rua Maricota Santos travessa Elias Bittar, Rua Coronel Lindolfo França, Rua Quinca Mariano, Rua Coronel Filadelfio de Lima, Rua Martinez Rodrigues da Cunha, Praça Nilo Tabuniqui, Rua Dom Silvério, Praça da Constituição, Rua Paissandu, Rua Natal Mujali, Rua Jaime Gomes, Rua Uberaba, Praça Tereza França de Lima e Rua Elias Peixoto, Rua Antônio Lemos, Rua Coronel Póvoa, Rua Avaré, Rua Tamandaré e Praça Tereza França de Lima, Rua Nader Cury, Rua Tambiris, Rua Doutor Alberto Moreira, Rua Antônio Camilo da Costa, Rua Josias Batista Leite, Rua Gonçalves Dias, Rua Raul José de Belém, Rua Argentina, Praça Pedro Teixeira.
Fiz questão de citar cada uma delas para que vejam a magnitude da intervenção pretendida. O quanto a história de Araguari está sendo ameaçada, e que poderá se perder pra sempre caso a obra se realize. Cito, também, trecho da fala do Secretário, publicado no site oficial da Prefeitura de Araguari, em que ele defende um ponto de vista que entendemos não se aplicar ao caso em análise pelos motivos abaixo apresentados.
A referida “modernização” pretendida não será salutar ao município, uma vez que não foram feitos estudos adequados para a implementação desta obra aqui. É, deste modo, uma tragédia ambiental anunciada, a qual não podemos permitir.
Bem sabemos que é preciso coragem para contestar e mostrar que certos tipos de "progresso" não são bem-vindos. Sabemos, também, que quem defende esse ponto de vista é tachado pelos incautos de “retrógrado" e “atravancador do progresso”. Mas, para a infelicidade deles, isso não nos inibe em mostrar-lhes que é preciso evoluir com consciência, buscando sempre que possível harmonizar o progresso à preservação cultural, sob pena de condenar a identidade histórica de um povo.
Vemos nesse episódio, então, um momento valioso para esclarecermos ao povo araguarino o papel do conselheiro na sociedade: o de atuar em defesa de um interesse difuso de alta relevância que é o patrimônio cultural. O Conselho não age para causar empecilhos, nem tampouco para atravancar nada. Ele é “o anjo da guarda” de um patrimônio que é justificadamente interessante ser preservado. É um órgão constituído por lei, que não deve curvar-se, jamais, a interesses políticos datados ou a qualquer espécie de pressão, porque age legitimamente em prol da coletividade que, inclusive, espera dele essa ação.
É preciso entender que nenhum Conselho pretende (nem deve) preservar todo e qualquer bem cultural indistintamente, porque se agisse assim estaria ele condenando a criatividade humana à paralisia, com evidente, e crescente, empobrecimento do patrimônio cultural. Por outro lado, também é preciso preservar-se os produtos mais relevantes, exatamente pelo mesmo motivo, isto é, impedir o empobrecimento do patrimônio cultural que resultaria dessa perda. Assim, deve-se conciliar a novidade ao antigo, preservar e conservar, mantendo-se aqueles artefatos mais significativos, sem que se perca a dinâmica e o pluralismo característicos da atividade cultural do homem. Ademais, não é porque um órgão procede à conservação de um prédio antigo, por exemplo, que estará ele obstruindo o progresso de uma cidade. Aliás, a experiência nos mostra que falta bom senso entre os que defendem o “progresso”. Por vezes, agem cegamente, com radicalismo. Enquanto que, por outro lado, bastava-lhes uma visão macro da situação, buscando entender que o prédio é apenas um exemplar dentre dezenas ou centenas de outros, que serão, fatalmente, descaracterizados e perdidos pra sempre. Daí a razão da existência de um Conselho e pessoas dispostas a preservar esse patrimônio diferenciado.
As pessoas talvez não dêem atenção a isso, mas ruas de pedras de Araguari já cederam à citada dinâmica cultural, pois já não temos no seu entorno os postes antigos de ferro ou as luminárias. Tudo foi “modernizado” e substituído pelos postes de concreto com iluminação elétrica. Opor-se a isso restou inútil porque a luz elétrica iria trazer, como de fato trouxe, inegavelmente, uma grande melhoria na qualidade de vida das pessoas. Deste modo, manter os postes antigos era injustificável. Porém, agora, o asfaltamento destas vias não se justifica somente porque estão em mau estado de conservação e desniveladas. Elas fazem parte da nossa HISTÓRIA VIVA. São ruas decenárias, que precisam ser protegidas e, urgentemente, restauradas. Conservar esse acervo é ato de cidadania, de consciência ambiental, pois é através da preservação que as gerações vindouras conhecerão a expressão material de nossa cultura araguarina, de nossos valores, da vida de nossos antepassados, tal qual tivemos o privilégio de conhecer. Um luxo que poucas cidades podem desfrutar, mas que inúmeras lamentam não podê-lo.
Além disso, a execução da obra pretendida não pode realizar-se da maneira recorrente, pois, ainda que as citadas ruas não fossem relevantes para nossa história do ponto de vista cultural, necessário seria a manifestação deste Conselho Deliberativo acerca de sua realização, já que ela se dará no perímetro de entorno de determinados bens tombados, casos em que, por força da Lei Municipal nº 2449/1989, o Conselho deve ser consultado. No entanto, nenhum documento oficial sobre o caso nos foi apresentado até o momento.
Além da relevância cultural das artesanais ruas de pedra, temos vários argumentos técnicos para que a obra não se realize, dos quais poderemos citar alguns:
a) O asfaltamento sob o calçamento de pedras promove a impermeabilização total do solo; (a água não infiltra no solo, formam-se poças d’água e poderá causar alagamentos, etc.)
b) Aumento demasiado do calor nas ruas asfaltadas em relação ao calçamento; (em plena era do "façamos de tudo para conter o aquecimento global", lá vamos nós asfaltar, SEM NECESSIDADE NENHUMA, mais de 25 vias! Um total contra-senso que nos faz caminhar, a passos largos, para um final sem sombra e água fresca)
c) Eliminação da vegetação existente entre as pedras; (aquelas “plantinhas” promovem a absorção de água e nutrientes; retém parte dos sólidos carreados pela água de chuva e, também, de micro partículas de poluição como é o caso do próprio desgaste do asfalto. Por isso, as ruas de pedra - paralelepípedos - são consideradas ecologicamente corretas; etc.)
d) Aumento da velocidade dos veículos motorizados, e conseqüentemente maior ocorrência de acidentes; (por motivos óbvios, rua "lisa" incita a velocidade, que gera imprudência, que resulta no aumento de acidentes.)
e) Aumento da velocidade de escoamento das águas pluviais; (danos nas estruturas das galerias antigas com risco de desabamentos.)
f) Pequena vida útil do pavimento asfáltico; (basta transitar pelas ruas da cidade para constatar por si só a má-qualidade de nossas vias já asfaltadas. A bem da verdade é que com essa verba de aproximadamente cinco milhões de reais poderíamos recapear as ruas maltratadas e proceder a manutenção das de pedra. Parece óbvio que assim teríamos uma ótima malha viária: revitalizada e preservada.)
Estejam certos, senhores, que se o asfaltamento acontecer tal qual o planejado, tudo isso um dia há de repercutir na história: “por que permitiram tamanha loucura?”; “que motivação poderia existir se não apenas vaidades políticas?”; “será que ninguém podia ter impedido essa obra?”, questionarão. Que estes não sejam questionamentos do agora, do curto prazo, mas fatalmente o serão um dia (provavelmente quando a noção de progresso evoluir). Nesse dia todos aqueles que defenderam o famigerado a todo custo já estarão marcados na história de Araguari, não pela atitude altruísta e benemérita de terem lutado pela preservação de seu patrimônio cultural, tal qual o fazemos, nem pela dignidade de tê-lo recebido, conservado e passado adiante, mas sim de forma negativa, pela atitude vil e egoísta com que agiram quando o município precisava ser tutelado por eles.
CIDADÃO ARAGUARINO! Ainda há tempo de evitar essa tragédia do ponto de vista histórico-cultural e ambiental para nós. Para isso manifeste-se a favor de Araguari e contra esse inoportuno asfaltamento. Não se deixe levar pela vaidade egoísta de ser favorável a uma medida somente porque o seu veículo transitará melhor nesse tipo de rua. Não se engane. A maior parte da nossa cidade já está asfaltada, e bem sabemos da má qualidade dessas vias que, inclusive, é um problema que vem de outras gestões municipais.
Pelo exposto, rogamos a todos que tenham a consciência de lutar pela salvaguarda das ruas de pedra (paralelepípedos). Elas precisam apenas de manutenção. Ajude-nos a preservar este patrimônio cultural e fazer de Araguari uma cidade melhor, onde o passado participe do desenvolvimento do presente e futuro. Feito isso, teremos, de fato, a REVITALIZAÇÃO da nossa cidade, com ruas niveladas e bonitas, como todos queremos.
Araguari/MG, 21 de julho de 2010.
OBS.: Efetivamente pouco adiantou esse manifesto, pois o asfalto foi passado indiscriminadamente pela cidade. Reitero: nunca fui contra o asfaltamento, apenas defendi/defendo a necessidade de critérios para tanto, ainda mais considerando que há lugares em barro puro... (O que é prioridade?)
Parabéns ao autor pelo magnífico texto, exemplar em forma e conteúdo.
ResponderExcluirÉ preciso muita persistência para combater a política "progressista", cujo crescimento em geral é o de suas contas bancárias.
Espelhem-se no exemplo de Poços de Caldas e a luta permanente que temos mantido pela preservação do magnífico patrimônio ferroviário, dos mais completos e raros disponíveis no País. Não fosse a intransigência e a denúncia permanente, talvez todo o leito urbano já tivesse virado avenida. Em vez disso, trabalhamos há dois anos pela implantação de um trem turístico, cujo traçado poderá ser utilizado para otimizar o transporte público entre o centro da cidade, onde está a Estação, e a região mais carente da cidade.
Quanto à questão ambiental, enfrentamos problema parecido após duas gestões terem tentado (e começado) a implantação de um paço municipal em área de preservação permanente. São duas ações judiciais, uma delas do MP, exigindo apenas que se fizesse o licenciamento ambiental, o que nuca foi feito simplesmente porque não é possível fazer.
Em ambos casos, foi importante a mobilização popular: no caso do Trem, foram duas caminhadas pelo leito da ferrovia, pressão na mídia, debates nas escolas -crianças entendem muito bem os problemas que as afetarão no futuro e levam os pais a refletir e se posicionar; no caso do paço organizamos uma petição pública no Avaaz, que correu o mundo.
Felizmente elegemos um novo prefeito, que abraçou o projeto do trem e já encerrou a questão do paço. Homem lúcido.
Seguem links para consulta.
Continuem lutando e contem conosco.
http://www.avaaz.org/po/petition/Paralisacao_das_obras_do_Paco_Municipal_em_area_de_protecao_ambiental_Inclusive_area_de_recarga_de_aguas_termais/?fGaatdb&pv=1
http://www.memoriadepocos.com.br/2012/10/condephact-ate-quando.html