O BRASIL PRECISA DE UMA “REVOLUÇÃO FRANCESA” NA POLÍTICA

           Desde muito cedo aprendemos que conhecer a História é um meio importante para que evitemos incidir em erros do passado. Ela é, por assim dizer, a experiência que o tempo nos mostra, a qual devemos trabalhar no presente, visando um futuro de melhor qualidade para todos. Bom. Pelo menos deveria ser assim.

          Na França, do século XVIII, a exploração econômica dos pobres pelos ricos era crítica. O descontentamento era geral e todos achavam que aquela situação não podia continuar. Um movimento iniciado por um grupo de intelectuais franceses criticava e questionava o regime absolutista. Eram os iluministas. E esse movimento, de caráter idealista e reformador, acabou por orientar ações que culminaria na Revolução Francesa, que foi uma das maiores revoluções da história da humanidade. Seu objetivo não era apenas o de mudar um governo antigo. Ela ia além. Queria abolir toda a antiga forma de sociedade, apagar as tradições, renovar costumes e os usos e, de alguma maneira, esvaziar o espírito humano de todas as idéias sobre as quais se tinham fundado, até então, o respeito e a obediência, cegamente praticados. E assim se deu.

             Da mesma forma, nós precisamos, urgentemente, de uma “Revolução Francesa” na política brasileira! Ao contrário do que se pensa, não é a Saúde ou a Educação os setores públicos dignos de maior atenção, mas, sim, a Política. É aqui que está o “modo de governar”, onde se vai determinar como gastar o dinheiro público em todos os setores, inclusive naqueles outros dois. Por isso, se a Política vai mal, isto é, se a condução do governo é exercida por gente incompetente, todo o resto sofre as consequências disso, gerando pouco resultado e, por conseguinte, a insatisfação popular. E isso precisa ser reconhecido e debatido entre todos nós, com todo o rigorismo possível, o quanto antes.

Algumas medidas no setor político, aliás, já deveriam há muito ter sido tomadas, como, por exemplo: a redução salarial dos parlamentares em, pelo menos, um terço, com reajuste somente por referendo popular, ou seja, com a anuência do povo. Além disso, limitação das imunidades e privilégios; pré-informação dos candidatos, como biografia, declaração de ficha limpa e antecedentes criminais disponibilizados nos sites dos Tribunais Eleitorais para livre acesso pelo povo; redução no número de assessores (pelo fim do cabide eleitoral); e, talvez o mais relevante, redução do mandato dos senadores para quatro anos. Por que, afinal, um senador tem mandato de oito anos? Que benefício isso trás para a nação? Oito anos de um salário pomposo e de regalias quase infinitas geram, de fato, muitos lucros, mas certamente para eles próprios. Já passou da hora de limitarmos-lhes esse excesso de poder!

Parece-me que essas mudanças viriam como positivas nesse processo político-evolutivo pela qual estamos passando. Estávamos (e ainda estamos) tão  acostumados às heranças do coronelismo e do poderio cedido aos tais parlamentares, que eles sempre nos pareceram inquestionáveis, irrepreensíveis. Pois fomos doutrinados, por décadas (ou séculos), a não investigar ou questionar, mas apenas a reverenciá-los.

Porém, com o advento da  internet e a globalização da informação, as sujeiras políticas começaram a vir à tona e, com isso,  o tal paradigma senatorial vem caindo. Estamos, sim, no caminho certo  do amadurecimento político, mas ainda longe de romper esse laço tão negligenciado. Digo isso, porque muitos dos leitores deste artigo, inclusive, sequer se lembram em quem votaram para senador na última eleição. Cuidado! Não permita que isso aconteça com você.

Assim sendo, não adianta apenas reclamar da injustiça social sem inteirar-se politicamente. É evidente que o salário mínimo brasileiro é aviltante; que as altas cargas de impostos são abusivas; que o fato de os políticos aumentarem seus próprios salários, sem justificativa plausível e já além do razoável, todo ano, é inaceitável; que a saúde é lastimável e a educação idem, etc. E vamos bater nessas teclas até sermos ouvidos e esses males sanados! Mas é preciso educar-se politicamente antes de tudo.

Até hoje, o povo, que forma um contingente de milhares de cidadãos pobres (favelados, suburbanos, excluídos...) só não tomou uma atitude mais drástica ainda, como a luta armada, porque o governo brasileiro, astuciosamente, tem agido com paliativos sociais. Fornecendo uma bolsa disso aqui, outra daquilo acolá, e vai-se evitando o estado crítico. Mas não podemos nos dar por contentes ante a essa notável ludibriação, visto que os inimigos públicos continuam no poder.

Lá, no Congresso  Nacional (Câmara e Senado), disfarçados de representantes do povo, temos aristocratas;  “sanguessugas” já condenados; lesas-pátrias e corruptos de marca maior e outros que, espantosamente para o tempo em que vivemos, continuam “senhores feudais” de muita terra tupiniquim!... O país inteiro sabe que lá circulam livremente alguns dos nossos “suseranos” da modernidade. Um deles, por sinal, cadeira cativa no Senado, comanda um Estado inteiro (que está à míngua!), e nada acontece para tirar-lhe do poder. É tão intocável, que já nos conformamos que só a morte para por fim à sua dinastia.

A política segue o seu curso, e ano que vem é ano eleitoral. É chegada à hora dos “coitadinhos” virem pedir o nosso “voto de confiança”. É a época dos “bons” políticos entrarem em cena, com as suas famosas “caras-de-pau”. São atores em sua representação artística clássica: eles veem, sorriem para a gente; pegam em nossas mãos; chamam-nos de “amigos” e, se precisar, até nos beijam! E “beijar” é algo que muitos deles, provavelmente, não devem fazer nem com a própria família. Dão cestas básicas; caixas de cerveja para o churrasco dos espertalhões, e assim por diante. É tudo um jogo de interesses mesmo. Mas que não deixa de ser, em alguns casos, uma tremenda cafajestagem de ambos os lados!

E depois, ante a má administração, querem reclamar que o país está mal, cheio de corruptos... Mas, é claro! Se você troca o seu voto por favores, quer o que? O voto deve ser  concedido a quem merece, a quem tem uma biografia voltada para ações cidadãs, e não para aventureiros! O brasileiro tem compreendido isso cada vez melhor. Contudo, na contramão desse progresso, estão aqueles que infelizmente ainda  continuam negociando votos, prejudicando o país, ignorando as más consequências de tal atitude anticívica; que é criminosa inclusive.

Acompanhar a política  é dever de todo cidadão consciente, pois nela há, também, um “que” de enganosidade, às vezes não tão aparente. Por exemplo: o governo traça metas (anuais, plurianuais) que aos olhos da maioria soa como o supra-sumo da vontade dele em agir. Mas não é bem assim que funciona. Há toda uma jogatina política por trás disso. Posso afirmar que nenhuma dessas metas jamais serão cumpridas a contento! Isso se chegarem a sair do papel. Porque a “arma” do político é justamente os anseios do povo; os problemas. Todo político é eleito porque prometeu solução para alguma coisa. Mas, curiosamente, ninguém consegue resolver os grandes problemas sociais (saúde, educação, segurança, etc), que já se transformaram num infindável por vir. Já notou isso, ou não?

Deste modo, o “eterno carente” (o povo) continua esperançosamente votando naqueles que se propõe em resolver os tais problemas. Mas que, como já percebemos, nunca serão, de fato, resolvidos. E é nesse lamentável contexto que temos nascido, vivido e morrido, à mercê dos homens de poder, que só querem perpetuar no comando. E isso só será modificado com a politização do povo, por si mesmo.

Diante desse fatídico quadro, os nossos parlamentares estão esperando o que afinal? Que os “sans culotte” brasileiros estourem uma revolução para serem ouvidos? Que num belo dia invadam o Congresso, e tal como fizeram os camponeses com a nobreza durante a Revolução Francesa, os executem, numa espécie de vingança, de uma raiva acumulada por séculos? Que insensatez é essa? Por que não tratar o povo como o legítimo dono do poder, distribuindo as riquezas de forma justa?  De uma forma ou de outra, precisamos romper com essa democracia de araque.

A bem da verdade, meus caros, é que todas essas respostas já foram respondidas pela História. Depende  apenas do grau de envolvimento mais ou menos politizado de cada um de nós para entendê-las, transformá-las e aplicá-las ao bem de todos. E seria tão mais fácil se isso acontecesse em tempos de paz!...

Luciano Caettano

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